Slam Altino: ninguém cala o nosso grito!

Slam Altino: ninguém cala o nosso grito!

Estudantes da Zona Leste de São Paulo criam competição de poesia para problematizar preconceitos sofridos no cotidiano

No final da década de 1990 e início dos anos 2000, São Paulo viveu uma revolução no acesso e na produção de poesia. Sarau do Binho  e Cooperifa são alguns dos exemplos dos saraus de poetas marginais que se popularizaram nas periferias da cidade. Nos últimos anos, entretanto, essa cultura de resistência ganhou um novo formato:  o “slam”.

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Foi justamente pela influência dessas iniciativas que estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental Altino Arantes, localizada na Zona Leste de São Paulo, decidiram criar o “Slam Altino: ninguém cala o nosso grito!”. Desde 2018, o projeto tem servido como instrumento para os jovens problematizarem questões de dentro e fora da escola.

“Dentro da escola estavam acontecendo muitos casos de machismo, homofobia e racismo entre os alunos. Foi aí que eu dei a ideia de trabalhar com o slam, que eu havia conhecido na Praça Roosevelt com a minha família, o Slam Resistência”, recorda a estudante do 9º ano, Bruna Gallego.

O conceito do “Poetry Slam” (na tradução, “competição de poesia”) foi criado nos anos de 1980, em Chicago, nos Estados Unidos, e consiste em uma “batalha” de poetas, que declamam suas poesias e recebem notas dos jurados pelo conteúdo das letras e performance. Inspirada por essa prática, a poeta Roberta Estrela D’alva criou, em 2008, o primeiro slam do país, o ZAP (Zona Autônoma da Palavra). Desde então, a prática se popularizou e, atualmente, atinge cerca de 150 slams pelo país.

 

Estudantes criaram o slam para dar eco às vozes dos estudantes

Estudantes criaram o slam para dar eco às vozes dos estudantes

Poesia e Direitos Humanos

Há alguns anos, os estudantes criaram uma prática de diálogo por meio de assembleias. Mediadas pelo Grêmio Estudantil, elas ocorrem bimestralmente e buscam entender o que está acontecendo na escola por meio de categorias. Aquilo que está funcionando é o “que bom!, o que está ruim é o “que mal!” e sugestões melhorias no espaço escolar é o “que tal?”.

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Foi justamente nesse espaço que surgiram relatos de feminicídio, problemas com drogas e desestruturação familiar vivenciados pelos estudantes fora dos muros da escola A partir da necessidade de complexificar essas dificuldades, a questão dos Direitos Humanos e da diversidade se tornaram conteúdo interdisciplinar nas aulas de Artes, Informática e Língua Portuguesa.

Os estudantes trabalharam com grafite, spots de rádio, produção de memes e oficinas de lambe-lambe. Mas foi o slam que ganhou destaque.  “A gente já estava trabalhando com os Direitos Humanos e o slam caiu como uma luva, foi a chave. Ajudou muito no convívio escolar e é possível comparar um antes e um agora, quando o slam já conseguiu ter voz dentro da escola”, afirma o aluno do 9º ano, Gabriel Carvalho.

Além do impacto coletivo, Gabriel aponta que o slam também contribuiu individualmente entre os participantes. “Eu, especificamente, não escrevo diretamente sobre questões gerais. Eu falo sobre meu sonho de ser jogador de vôlei e sobre a ausência do meu pai. O slam impactou muito a gente, para perder a vergonha e conseguir amadurecer individualmente”, opina.

Jovens utilizam poesia para tratar temas sensíveis/

Jovens utilizam poesia para tratar temas sensíveis/ Divulgação

O grito ecoou

Desde o ano passado, o Slam Altino vem conquistando reconhecimento e expandindo seu grito para além dos muros da escola. Em novembro, o projeto foi premiado no 6º Prêmio Municipal Educação em Direitos Humanos, promovido pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Já em março deste ano, ficou entre os 10 ganhadores do Prêmio Territórios, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake e da Secretaria de Educação de São Paulo que reconhece projetos que conectam a escola à cidade.

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“O maior impacto do projeto é ver a autonomia deles, ver como eles foram crescendo com o projeto. É aquela situação que parece que se der asas eles voam mesmo. Eles estão criando repertório para debater várias questões. Eles querem ser ouvidos e ouvir”, afirma a professora de Língua Portuguesa, Carolina Lobrigato.

Com diversas apresentações marcadas, o Slam Altino também se tornou o Trabalho Colaborativo Autoral (TCA) dos estudantes, que é uma prática comum nas escolas municipais de São Paulo e estimula os alunos desde o 7º ano do ensino fundamental a criar um projeto para ser apresentado no final do 9º ano.


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Redação: Guilherme Weimann
Edição: Jéssica Moreira
Imagens: Divulgação

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