Alunos quilombolas de PE usam audiovisual contra preconceito na escola

Alunos quilombolas de PE usam audiovisual contra preconceito na escola

Premiados no Desafio Criativos da Escola 2019, alunos quilombolas criaram documentário e realizaram diversas atividades para por fim à negação da identidade negra na escola e valorizar história da população quilombola

Apesar de a maioria da população brasileira se autodeclarar preta ou parda, o racismo estrutural, construído e perpetuado desde os tempos da escravização, ainda se manifesta contra as mais de 3,5 mil comunidades quilombolas remanescentes no Brasil afora. E foram justamente as práticas racistas, a negação da identidade e o desconhecimento das origens negras que fizeram com que um grupo de alunos estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental ao 2º ano do Ensino Médio da Escola Municipal Milton Pessoa, também integrantes das Associações Quilombolas do Livramento e Águas Claras, de Triunfo (PE), criassem o projeto “Consciência, Cor e Arte”, um dos premiados na 5ª Edição do Desafio Criativos da Escola, de 2019, iniciativa do Instituto Alana.

+ Conheça os premiados do Desafio Criativos da Escola 2019

Tudo começou quando os professores propuseram aos estudantes que refletissem sobre as práticas discriminatórias cometidas contra as comunidades quilombolas próximas à escola. Logo, constataram práticas que reproduziam o racismo em suas próprias relações interpessoais, como apelidar colegas de “quilombolas” – de forma pejorativa – ou por meio da contação de piadas com elementos preconceituosos. Para entender como esses hábitos impactavam na vida dos colegas quilombolas, o grupo realizou um questionário com os alunos dessa comunidade. Os resultados mostraram que 80% se utilizava de eufemismos para caracterizar sua cor; 52% afirmava o desejo de alisar o cabelo e 62% desconhecia a história da sua comunidade.

Jovens quilombolas produziram documentário para evidenciar história e cultura negra/ Divulgação

Jovens quilombolas produziram documentário para evidenciar história e cultura negra/ Divulgação

Ao perceberem as consequências na vida dos colegas, os alunos organizaram um cronograma de atividades para valorizar a cultura negra, e produziram dois curtas-metragens –  Vozes do Livramento e Na Batida das Águas Claras – que contam com depoimentos de idosos quilombolas. A conclusão dessas ações, feitas durante o ano de 2018, foi apresentada durante eventos de homenagem ao Dia da Consciência Negra de 2018 em duas comunidades locais. Para os autores do projeto, o principal legado dessa experiência foi o fortalecimento e empoderamento dos estudantes excluídos, que passaram a se orgulhar de sua cor e identidade, além de se tornarem multiplicadores da história e da cultura negra.  

Crianças tão pequenas se preocupando com o racismo estrutural que vem ocorrendo em sua escola, querendo empoderar seus colegas e ajudar de certa forma em sua própria aceitação é fantástico. Descobrir a história dos seus ancestrais é um jeito de você se descobrir”, é o que diz  a estudante premiada no Desafio Criativos da Escola em 2018, Mércia Sena, uma das criadoras do projeto “Cabelo, Autoestima e Construção da Identidade da Menina Negra”.

De Triunfo para Roma!

Agora, três estudantes e um professor orientador da iniciativa embarcam, em novembro, para Roma, na Itália, com a equipe do Criativos da Escola. Como parte da premiação deste ano, os sete grupos premiados participarão da Conferência Global “Eu Posso”  (I Can) – com a presença do Papa Francisco, de artistas e demais lideranças mundiais – onde vão compartilhar suas experiências de protagonismo, empatia, criatividade e trabalho em equipe para outros 2 mil estudantes de todo o mundo. Além da imersão, o grupo ganhará também o valor de R$1.500,00 para o projeto e R$500,00 para o educador.

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