Em Vila Rica (MT), estudantes criam documentário sobre assentamento

Em Vila Rica (MT), estudantes criam documentário sobre assentamento

Jovens filmam consequências da pastagem do gado de leite em assentamento na zona rural e promovem debate com conteúdos estudados em aula

A degradação de pastagens é apontada como um dos grandes problemas que ocorrem como consequência da agropecuária feita em larga escala no Brasil. No assentamento Santo Antônio do Beleza, zona rural do município de Vila Rica, no Mato Grosso, o manejo inadequado de pastagens para gado de leite tem transformado a região em uma paisagem árida e colocado em risco espécies que ali vivem.

Preocupados com o futuro do lugar onde cresceram, os estudantes Wilson Dourado e Wisney Santos, de 18 anos, sentiram que precisavam fazer alguma coisa. Juntos, concluíram que nada melhor que produzir informação. 

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“Estávamos de férias e, em uma conversa, lembramos de como aquela área era cheia de verde, com muitas árvores nativas como pau-brasil, mirindiba e jatobá. Espécies que serviam de alimento para os animais e de base para remédios naturais para os moradores. Hoje, os córregos estão sumindo, nascentes secando, animais, como veado e lobo-guará, já quase não se vê. Além da tradição de uso das plantas medicinais que, aos poucos, está se perdendo”, lamenta Wisney.

Estudantes produzem documentário no MT

Estudantes produzem documentário no MT

Na volta das férias, os amigos lançaram a ideia em sala de aula: produzir um documentário que retratasse os impactos das pastagens no assentamento e a necessidade de se pensar novas formas de gerir o meio ambiente e a economia local, que tem a agropecuária leiteira como principal meio de renda das 219 famílias. Surgiu, assim, o Economia e Biodiversidade, filme de 13 minutos que contou com uma ação coletiva de estudantes dos três anos do ensino médio da Escola Estadual Vila Rica.

“Fiquei honrada quando me chamaram para orientá-los, mas o projeto foi todo desenvolvido pelos alunos. Da ideia à edição”, conta a bióloga e professora Marayza Bezerra. 

LUZ, CÂMERA, AÇÃO!

Estudantes acampam durante filmagem de documentário

Estudantes acampam durante filmagens de documentário

O documentário, que foi finalista da quinta edição do Desafio Criativos da Escola, foi produzido em três fases. O primeiro passo da turma foi se dividir entre as funções de diretores, narradores, roteiristas, repórteres e cinegrafistas e organizar um cronograma.

Com as responsabilidades já distribuídas, o grupo mergulhou na pesquisa. Conversaram com produtores de leite em Vila Rica, a 45 quilômetros do assentamento, e com moradores da comunidade.

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Depois, com o intuito de mostrar a biodiversidade que estava se perdendo, os estudantes visitaram uma reserva da região, onde acamparam por 24 horas e filmaram a fauna e a flora local. Por fim, todo o material captado foi editado pelos alunos e se transformou no documentário.

“Nós temos muita carência de equipamento na escola, então todo o projeto foi feito com nossa força de vontade e com o que tínhamos em mãos. Usamos nossos celulares, lanternas quando fomos acampar na reserva e aprendemos a editar buscando ajuda na internet, apesar de nem sempre conseguirmos captar o sinal aqui. Mas ficamos orgulhosos com o resultado final. A experiência que a gente ganhou foi muito grande, além do maior convívio com os colegas de turma”, conta Wilson, que dirigiu o filme ao lado de Wisney. 

Estudantes realizam conversas sobre documentário no MT.

Estudantes realizam conversas sobre documentário no MT.

Com o documentário em mãos, chegou o momento mais esperado: levar as informações à comunidade e promover debate. O grupo organizou um luau no assentamento e fez uma primeira apresentação ao ar livre. A reação de quem assistiu foi de orgulho por se ver na tela, mas também de preocupação com o meio ambiente. 

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Legado de esperança

A professora Marayza explica que as famílias da região vivem da produção de leite e, com isso, necessitam de pastagens, principal fonte de alimento e de engorda do gado de leite. Para isso, derrubam suas matas, utilizam substâncias químicas para a limpeza do solo e realizam frequentes queimadas para se livrar das pragas.

Segundo ela, antigamente a terra tinha nutrientes suficientes para produzir pastagem. Hoje em dia, com a degradação, já estão fracas.

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“De um lado, temos os estudantes que têm uma visão de que no futuro tudo isso vai se perder. Do outro, temos os produtores que entendem que se persistirem nas queimadas, vão dar fim à biodiversidade. Inclusive, com o filme viram que muita coisa já se perdeu. Mas esses mesmos produtores se veem sem escolha porque a forma de minimizar esse desmatamento é cara, demanda um investimento que eles não têm condições de arcar”, diz Marayza.

Doc Economia e Biodiversidade 

Os alunos, no entanto, veem como positivas as dúvidas que o filme provocou e que foram levadas para dentro de sala de aula. É que boa parte desses pequenos produtores de leite da região estudam na Escola Estadual de Vila Rica. Wilson conta que eles têm uma rotina pesada, que inicia às 4h30 para ordenhar as vacas, separar o leite para venda e, só depois, ir para a escola. Um trabalho que envolve toda a família.

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“Com o documentário conseguimos retratar e documentar essa nossa realidade e debatemos isso usando conteúdos que estudamos em sala de aula. Sabemos que usufruir da terra sem prejudicar o meio ambiente é algo que vai demorar [a acontecer] e nosso objetivo não é denunciar, mas mostrar que vetar parte desse desmatamento é possível. Esse é o nosso legado”.

 

Redação: Helaine Martins

Edição: Helisa Ignácio

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