Alunas utilizam história para valorizar mulheres negras de Casa Nova (BA)

Alunas utilizam história para valorizar mulheres negras de Casa Nova (BA)

Com palestras e estudos sobre a história da mulher afro-brasileira, a iniciativa gerou maior autoestima e valorização da ancestralidade negra em toda a comunidade

Quando as estudantes do Centro Educacional Antônio Honorato, localizado na cidade de Casa Nova (BA), tomaram conhecimento sobre as situações de discriminação racial que as mulheres negras do município vivenciavam diariamente, resolveram colocar as mãos na massa, desenvolvendo o projeto “Empoderamento da Mulher Negra”, com ações de valorização e reconhecimento da cultura afro-brasileira na sociedade. A iniciativa foi um dos destaques do Desafio Criativos da Escola de 2018.

Fique ligado: o resultado do Desafio 2019 será divulgado na última semana de agosto em nosso site! 

A partir de um levantamento de dados sobre vivências pessoais de mulheres negras da região e uma pesquisa sobre a “ditadura da beleza”, que difunde valores estéticos que apagam os traços negros, elas concluíram que era necessário trabalhar a autoestima, incentivando-as a amar a si próprias e a ter orgulho de suas raízes.

As meninas organizaram um desfile pautado na valorização da estética afro, juntamente com palestras, nas quais as mulheres negras eram protagonistas da sua própria história, contando as mais diversas narrativas e mostrando trajetórias de pessoas da comunidade que romperam as barreiras do preconceito de raça e de gênero.

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A jovem Raquel Cerqueira, 18, que participou do projeto em 2018 e atualmente auxilia em ações pontuais, conta que no decorrer das atividades muitas meninas fizeram a transição capilar e, se antes tinham vergonha de dar relatos ou participar do desfile, hoje, elas querem se envolver mais. “Quando eu ouvia alguns depoimentos de pessoas que passaram por algumas lutas, isso me sensibilizava muito e me impulsionava a ajudar mais pessoas a retomar sua identidade e se amar”, relata.

O poder do olhar atento ao território

Tudo começou quando a turma foi solicitada a criar um álbum fotográfico sobre o patrimônio histórico local, como parte das atividades do projeto de Educação Patrimonial e Artística (EPA), que integra a grade curricular baiana e incentiva os estudantes a observarem o território e sua história.

Estudantes realizaram pesquisas, palestras e desfile para fortalecer a beleza negra/Divulgação

Estudantes realizaram pesquisas, palestras e desfile para fortalecer a beleza negra/Divulgação

Ao vivenciar essa experiência, algumas estudantes negras perceberam que elas representavam a maior parcela da população do estado baiano, fazendo com que compreendessem a importância da mulher negra como parte do patrimônio da região. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) atualizados em 2018, 80% da população no estado se declara negra (preta ou parda). 

A partir desta descoberta, elas se dividiram em dois grupos: o primeiro produziu um álbum retratando a ascensão social das mulheres negras, que antes ocupavam poucos lugares de visibilidade no mercado de trabalho e hoje estão alcançando outros cargos, como médicas, advogadas e até mesmo fazendo carreira em cargos políticos, como a primeira deputada estadual negra da Bahia, Olívia Santana.

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O segundo grupo produziu um ensaio fotográfico para valorizar a beleza e estética da mulher negra, que foi realizado com as próprias estudantes do colégio. Elas também organizaram uma oficina de turbantes para enaltecer a estética da mulher negra e valorizar a ancestralidade afro-brasileira.

“Praticamente, minha família toda é negra, eu sou mais clara e tinha o cabelo cacheado, hoje em dia não é mais porque alisei”, expõe Ingrid Micaele, 18, que também integrou o projeto. “Me revoltava ver minha irmã sofrendo preconceito, ela chorava e queria alisar o cabelo, hoje ela se aceita. Isso me motivou a participar do projeto”, revela.

Representatividade como parte do ensino-aprendizagem 

O iniciativa alçou altos voos: além de recuperar a autoestima de várias meninas negras da comunidade, o álbum de fotos confeccionado pelas estudantes ficou em primeiro lugar no concurso do EPA, realizado nas cidades Casa Nova e Juazeiro, representando assim as escolas públicas do Vale São Francisco.

“O projeto incentiva o apoio entre mulheres negras, para que elas possam ir mais longe. Cada vez que uma mulher incentiva a outra, todas alcançam mais” conta Indryd Ribeiro, 15, uma das participantes. “Acho muito importante saber onde chegamos e de onde viemos. Isso é um grande incentivo para nós, mulheres negras”.

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O projeto, que começou no ano passado e continua acontecendo este ano, já tem as próximas ações previstas: desta vez as meninas vão produzir um clipe, juntando a beleza da mulher negra com a temática sobre o local onde vivem: o sertão baiano,

Para a professora Andrea Araújo, a potência da educação está justamente na transformação da realidade, trazendo novas perspectivas para os estudantes. “Minhas alunas relataram que foram vítimas de preconceito, mas que isso, hoje, entra por um ouvido e sai pelo outro, pois sabem até onde podem chegar. O importante é essa mudança, tanto na cabeça delas como das pessoas da escola e, a partir daqui, se multiplica para comunidade”, conta a educadora.

Redação: Laura Biaggioli

Edição: Jéssica Moreira

Imagens: Divulgação 

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