Textão nas redes sociais

Textão nas redes sociais

Estudantes de São Simão (GO) perceberam que os textos produzidos em sala de aula poderiam “ganhar vida” na internet e promover diálogos com outros jovens da comunidade – e do mundo.

 

A percepção de uma turma de educandos de São Simão, município de Goiás, foi simples, porém transformadora. Em aulas de redação, deram-se conta que produziam textos que seriam lidos apenas pelo educador e, quando muito, pelos colegas de sala, o que, ocasionalmente, gerava falta de entusiasmo em exercitar a escrita.

Dispostos a compartilhar a produção redacional com outras pessoas, educandos do 9º ano do ensino fundamental II criaram o projeto “I9AÇÃO”. Assim, por meio de “textões de Facebook”, poderiam contar ao mundo o que estavam pensando e discutindo.

“A gente escrevia, mas poucas pessoas liam”, constata Adriel Freitas Santos, hoje no 2º ano do ensino médio. “Nossa professora sempre passava temas de redação e elogiava o que escrevíamos. Mas, no final, a gente sentia que não servia para nada, que fazia por fazer. Daí, então, surgiu a ideia do projeto. Demos vida para os textos, acesso para outras pessoas lerem o que a gente escrevia e mostrar o que era feito dentro da escola”, conta o estudante.

“Tínhamos um motivo a mais para escrever ao saber que nosso texto poderia ir para a página”, conta Caio Murilo Krempel, que também cursa o 2º ano do ensino médio. “Com essa iniciativa, unimos a turma para fazer algo que gostávamos. Demos um gás para escrevermos mais e mais”, relembra.

A professora Rita de Cássia Rodrigues ressalta que um projeto como esse, que une tecnologia à produção de textos em sala, pode trazer resultados positivos na vida dos jovens.

“É uma coisa tão simples, não requer gastos, incentiva a leitura e a produção de textos e pode, muitas vezes, transformar vidas”, analisa ela. “Um projeto como esse pode ser o caminho tanto para descobrirmos um grande escritor, por exemplo, quanto para os jovens mostrarem o que estão pensando”.

Comunicar com o mundo

Jovens tiveram seus textos publicados na página do projeto

Jovens tiveram seus textos publicados na página do projeto

Além de melhorar a difusão dos textos, os estudantes entenderam que a publicação dos textos no Facebook poderia incentivar colegas que se sentiam inseguros em relação a sua escrita e ideias. Logo, formaram equipes que administram setores do projeto como o gerenciamento da página, a difusão de conteúdo nas redes sociais, a digitalização e a revisão de texto.

Batizaram o projeto de “I9AÇÃO” e agendaram o lançamento da plataforma para o dia 27 de setembro (9º mês do ano), às 18h18min – todos números múltiplos de 9, em referência a estarem no 9º ano.

Os educandos também realizaram uma campanha na cidade e conseguiram fundos para a confecção de camisetas e adesivos do projeto. “O lançamento surpreendeu: gente de outras turmas vieram prestigiar e os alunos estavam todos com a camiseta do projeto. Foi bem interessante”, rememora a professora Rita.

A página lançada publicava diversos gêneros textuais: dissertação sobre temas controversos da atualidade, crônicas, contos, depoimentos sobre experiências vividas, poemas, fábulas, fragmentos literários ou mesmo informacionais e de apoio moral na prevenção ao suicídio (durante a campanha “Setembro Amarelo”) e até vídeos com os estudantes exibindo seus talentos. Sempre conteúdos inéditos produzidos por eles.

Adriel, um dos responsáveis por revisar os textos antes de serem publicados, conta que o projeto o ajudou a melhorar sua escrita, porém sentiu que a principal mudança foi na forma como ele passou a se relacionar com os colegas

“Eu não era muito bom para trabalhar em grupo, mas participar dessa iniciativa, que envolveu cerca de 90 alunos, me ajudou muito. Todo mundo ficou unido e, no dia em que divulgaram os melhores projetos da cidade, tínhamos o apoio da escola toda!”, relembra ele.

“O projeto tomou tanta proporção que me espantou”, confessa a professora Rita. “Os alunos mandavam textos para

Alunos se reúnem com apoiadores do projeto

Alunos se reúnem com apoiadores do projeto

fora da cidade, depois para fora do estado e até para conhecidos que viviam em outros países”.

Rita também destaca que o nível de qualidade dos textos produzidos a impressionou.  

“São excelentes alunos que apresentam poucas perspectivas devido a todo esse sistema educacional, faltam oportunidades e há um sentimento de inferioridade que é difícil de tirar”, analisa a educadora. “Porém, nós, professores e gestores, temos que nos unir em projetos como esse e fazer o que pudermos para incentivar os alunos”.

Unir forças

Embora o “I9AÇÃO” tenha surgido durante aulas de redação, não é vinculado a nenhuma escola. A educadora Rita relata que a direção se recusou a apoiar o projeto devido ao histórico de “questionamentos da turma”.

“Como a escola não deu apoio como instituição, a gente levava a ideia para a rua”, conta Caio. “Os pais, nesse sentido, deram muita força para o projeto, acreditaram de verdade”.

Quando concluíram o 9º ano, em 2017, os educandos foram cursar o ensino médio em escolas diferentes, o que ocasionou o fim do projeto – ou uma pausa.

“Apesar de não estarmos nas mesmas escolas, às vezes nos reunimos e, ultimamente, alguns comentam sobre a vontade de continuar o projeto, porque gostamos muito da ideia”, finaliza Caio.

Confira a página criada pelos educandos. 

Redação: Rôney Rodrigues
Edição: Juliana Gonçalves
Imagens: Divulgação

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