Repórteres das quebradas

Repórteres das quebradas

Estudantes de São José (SC) apostam na comunicação como forma de contrapor o tráfico e serem protagonistas de suas histórias.

Informações preliminares apuradas. Enquadramento ajustado. A repórter mirim está ao lado do entrevistado, empunhando o microfone. O cinegrafista aperta o REC. 3, 2, 1, gravando! Está no ar o projeto “Te Vejo na Quinta”, o TVQ, uma iniciativa de estudantes do Centro Educacional Marista, entidade que atende jovens bolsistas de São José, cidade do sul de Santa Catarina. A proposta é simples, porém transformadora: comunicar para emancipar.

“Sempre nos olhavam como crianças faveladas que não têm futuro, como pessoas que não são pessoas. O TVQ e o nosso colégio fazem com que acreditemos que somos, sim, seres humanos” conta a educanda do 9º ano do Ensino Fundamental, Emily Ribeiro, que há quatro anos participa do projeto realizado com outros alunos que moram em bairros pobres e violentos do município.

O TVQ conta uma ampla programação audiovisual, promove eventos na escola (como festivais de música, dança e teatro), realiza formações e oficinas em outras escolas que almejam implantar projetos de comunicação, inspirou outros colégios da rede Marista, envolve a comunidade em seus trabalhos e cobre eventos, inclusive, recentemente, um encontro empresarial realizado na cidade.

O Marista de São José atende alunos de alta vulnerabilidade e, além dos desafios costumeiros presentes em uma escola, outros se assomam de forma preocupante como a presença de facções criminosas e intenso tráfico de drogas na região que alicia crianças e jovens.

“Elas [as facções criminosas] lutam para conquistar esses meninos e nós realizamos um trabalho para mostrar a importância da educação e do protagonismo dos jovens”, destaca com certa angústia o educador Edemilson de Souza. “A comunicação vem para dar vez e voz para eles. A partir do momento em que esses jovens fazem entrevistas, leem jornais e discutem vários assuntos, a sala de aula e a aprendizagem terão sentido em suas vidas – e não será mais um peso. O ensino se torna um meio para eles se realizarem como sujeitos e o conhecimento se torna uma ferramenta para transformarem suas vidas e sua realidade”, observa ele.

O estudante João Medeiros cursa o 9° ano do Ensino Fundamental e ingressou na equipe do TVQ devido ao seu entusiasmo pelo audiovisual. Hoje, participa de toda o processo de produção de conteúdo dos programas. “Transmitir e receber informações é a base de tudo. Nada acontece sem comunicação. Além disso, nosso projeto ajuda os alunos a escreverem e se expressarem melhor”, exemplifica ele.

Por ter ajudado a mudar a realidade dos jovens, o projeto foi destaque da premiação do Criativos da Escola do ano passado.

 

Isto não é (só) uma tevê

Na imagem vemos uma jovem segurando uma câmera e a outra um microfone na direção do entrevistado

Duas adolescentes entrevistam especialista durante evento voltado ao mercado de trabalho

No princípio, havia apenas a rádio da escola fundada em 2007. Com pouca estrutura, os programas versavam sobre o dia a dia da escola. Três anos depois, os alunos conseguiram mais verbas para a rádio e expandiram a programação: passaram a incluir notícias antes das aulas, cobertura de eventos, jogo de perguntas e respostas, correio elegante e informes sobre as atividades do colégio.

Em 2012, depois da cobertura de uma peça realizada pelo grupo de teatro da escola, surgiu a ideia de criar um coletivo para produzir conteúdo audiovisual. Conseguiram, então, um curso de educomunicação sobre produção de conhecimento por meio de reportagens, entrevistas e notícias ministrado pelo grupo Educom da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Munido de sua própria câmera, Edemilson ministrou aulas e oficinas sobre os princípios do jornalismo e da produção audiovisual para os alunos. A edição do material era problemática por conta do alto preço dos softwares de edição e da qualidade baixa dos computadores. Com a projeção do TVQ – os alunos conquistaram computadores melhores, conseguiram adquirir programas de edição e uma câmera nova. Assim, a programação que é transmitida pelo YouTube foi ganhando corpo.

A estudante Emily viu no projeto um novo canal para se expressar. Ela conta que o TVQ abre muitas portas para os alunos do colégio, ensina aspectos técnicos da comunicação (como pautar, filmar, entrevistar e editar), mas “vai além”: “ensinamos as pessoas a serem mais humanas e cidadãs melhores. Muitos dos nossos jovens chegam no 7º ano sem saberem ler e o TVQ é uma forma de aprimorar a leitura e a escrita”.

 

Presença na comunidade

Uma jovem segura um microfone sinalizado sendo da TVQ durante entrevista com morador do bairro

Estudante entrevista morador do bairro

A partir de uma nova proposta de Reforma da Previdência Social, no ano passado, o grupo avaliou que poucos educandos ou moradores da comunidade sabiam como esse projeto de lei poderia impactar suas vidas. A equipe do TVQ analisou que essa era uma excelente oportunidade para informar – e, também, formar – seu público. Assim, participaram de audiência pública sobre o tema e depois organizaram conversas com a comunidade e uma série de entrevistas.

“Muitas pessoas estavam com medo do que iria acontecer. Não sabiam muito bem o que mudaria. Fomos nas casas dos moradores da comunidade e explicamos o que era Previdência e o que representaria essa reforma”, explica o estudante João.

Além de produzirem reportagens sobre esse e outros temas com a comunidade, o projeto também realiza o programa culinário “TVQ na Cozinha”. Educandos vão à casa dos moradores da comunidade para que eles ensinem a fazer um prato, apresentando a história do menu e entrevistando os anfitriões sobre suas trajetórias de vida. “Sentado à mesa, conseguimos trabalhar o respeito e promover uma socialização entre alunos e comunidade”, afirma o educador Edemilson.

 

Questionar o mundo
João destaca que um dos desafios do projeto é ter uma audiência mais cativa dos próprios educandos da escola, porém, segue otimista com os resultados alcançados. “Mudamos a forma de comunicar do canal duas vezes, uma em 2015 e outra nesse ano. Ainda está no processo de transição. Vamos ver como serão os efeitos”, diz ele. Sobre os materiais, relata que os estudantes têm feito rifas e bingos para comprar novos equipamentos. “A primeira coisa que conseguimos comprar foi uma câmera nova, há dois anos atrás, porque a nossa não estava funcionando muito bem”, lembra Emily.

“O projeto segue muito bem e o número de alunos só cresce. Temos alunos desde o primeiro até o último ano do ensino médio”, afirma o aluno João.

O projeto, conta Edemilson, ajudou diversos alunos a se destacarem na sala de aula e, inclusive, conseguirem seus primeiros empregos. “A partir do momento em que eles seguram o microfone e produzem suas reportagens é como se levantassem a mão para questionar o mundo”, finaliza o educador.

Confira vídeo realizado pelos estudantes durante cobertura do evento “Diversidade Urbana”.

 

 

Você conhece um projeto protagonizado por crianças e jovens que está transformando a escola e a comunidade?

As inscrições para o Desafio Criativos da Escola 2018 já acabaram, mas você pode conferir iniciativas incríveis também por meio de nossas redes sociais (facebook, instagram e YouTube).

Redação: Rôney Rodrigues
Edição: Gabriel Maia Salgado
Imagens: Divulgação

 

1 Comentário
  1. Uma proposta educacional que nos faz repensar nossas didáticas conservadoras. Professores e alunos desta escola estão de parabéns!

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