Circo e comunidade

Circo e comunidade

Estudantes do ensino médio de Londrina-PR fomentam a arte independente na periferia e realizam experiências em “laboratório” de produção de eventos

Vida de artista não é nada fácil. Para além das aptidões necessárias para  “ganhar a vida” nesse desvalorizado meio é preciso também ser um produtor cultural em busca de projetos.

Por isso, educandos dos cursos técnicos de Artes Circenses, localizado em Londrina, no Paraná, organizaram o projeto “Circoletivo” com a expectativa de resolver dois problemas de uma só vez: experimentar a prática de organizar eventos e adicionar uma nova programação cultural independente para a periferia da cidade.

“Reunimos jovens e focos artísticos de todos os lugares, mostrando outra forma de trabalhar com arte”, conta a estudante do 3º ano do ensino médio, Emilly Giovanna Vieira de Souza, formada no Curso Técnico em Artes Circenses pelo Marista.

“Queríamos tratar da resistência da arte, principalmente em um contexto muito complicado para a cultura da cidade”, adiciona João Pedro Felix e Silva, que cursa o 4º ano do ensino médio integrado, também formado em Artes Circenses.

A educadora Juliana Camargo Matta relata que, certa vez, em 2016, quando educandos assistiam a uma peça teatral na cidade, perceberam que, raramente, produziam eventos. Não sabiam, portanto, os meandros e prazeres do processo de realizar um espetáculo artístico.

Era necessário “sentir na pele” o processo de organizar, produzir e gerir um evento, conta a educadora, que propôs aos educandos esse desafio como atividade da disciplina que ministra: “Desenvolvimento Ético Político e Cultural”.  “Na formação, os educandos escrevem projetos e produzem eventos, o que traz uma realidade muito palpável do que é ser artista. Isso os estimula a entender que é necessário construir uma rede para trabalhar no meio artístico”, analisa Juliana.

Laboratório vivo

Alunos vestidos de preto se entrelaçam em uma corda durante apresentação artística

Performance do Circocoletivo

Após discussões sobre o conceito e o nome do evento, os educandos se organizaram em comissões específicas para otimizar o trabalho: decoração e estrutura, programação, divulgação, oficinas etc. Também requisitaram doações nos comércios locais, principalmente de alimentos, para servir durante as apresentações – e, com a venda, arrecadar fundos para a formatura. O evento contou com inúmeras apresentações de artistas locais e oficinas – todas gratuitas.

“Não conduzimos praticamente nada”, destaca Juliana. “A ideia era eles estarem à frente da organização e vivenciarem a arte da cidade de Londrina, principalmente relacionada ao circo”, complementa ela.

A mediação dos professores se limitou a trâmites burocráticos – que os alunos por serem menores de idade não poderiam conduzir – e orientações em dúvidas e impasses. “Foi uma organização da turma toda – e uma loucura, porque também me apresentei no dia. Eu fui uma das responsáveis por decorar e preparar a estrutura do local. Tivemos a ideia de espalhar letras do alfabeto por todo o espaço para simbolizar essa pluralidade”, lembra Emilly.

Dificuldades

Juliana ressalta que o Marista conta com uma excelente infraestrutura – telefone, salas, iluminação etc. -, o que facilitou alguns processos do projeto. Os problemas, conta a educadora, vieram das naturais dificuldades de trabalhar em grupo: a oscilação do nível (e momentos) de participação, certas turmas colaboraram mais; outras nem tanto.

Os educandos concordam que a infraestrutura ajudou, porém destacam que a falta de apoio financeiro resultou em algumas frustrações. “Queríamos trazer vários artistas da região para se apresentarem, o que não foi possível. Sonhávamos com algo grandioso, mas o que foi feito já foi super legal”, relata Emilly.

Três estudantes fazem performance durante apresentação do Circoletivo

Três estudantes fazem performance durante apresentação do Circoletivo

Em 2017, conta João, o “Circoletivo” foi selecionado, junto a outros 81 projetos da cidade, para o Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) e receberia um repasse de verbas públicas da Secretaria de Cultura de Londrina para auxiliar na realização do evento. Porém, o programa foi cancelado. A Prefeitura alegou que uma lei federal que entrou em vigor naquele ano se sobrepunha a legislação municipal. “Por mais que tenhamos força de vontade, precisamos de um mínimo de recursos para realizar o evento. Mas conseguimos compensar”, constata João.

Um ponto destacado pela educadora Juliana é a dificuldade em formar público para as edições do “Circoletivo”. Segundo ela, muitos têm resistência para se deslocarem para a zona norte de Londrina para assistir a um “evento de adolescentes”. “Estamos na luta por formação de público e para mostrar que circo e dança não precisa acontecer somente nos teatros e universidades da cidade, pode acontecer em muitos outros espaços.  É nossa luta se firmar não somente como espaço educativo, mas também como ponto de cultura”, afiança ela.

Resistência pela arte

João destaca que Londrina, apesar de ser uma das principais cidades do Paraná e contar com mais de meio milhão de habitantes possui poucos espaços para atividades artísticas, principalmente para quem inicia uma carreira na área. Os reduzidos redutos de efervescência cultural – como, por exemplo, o famoso Teatro Ouro Verde –  são, segundo os educandos, elitizados e se localizam em bairros de difícil acesso para quem vive na periferia.

O “Circoletivo”, contam eles, representou a criação de uma nova programação cultural não só para alunas e alunos que cursam artes circenses e cênicas no Marista, mas também para artistas independentes da cidade e para a apreciação da comunidade.

“O bairro conta com pouco acesso à cultura, que se concentra mais no centro, na zona sul e nas faculdades. Buscamos facilitar o acesso à arte para a comunidade, que abraçou nossa iniciativa. Sempre que abrimos as portas da escola a receptividade é muito grande. Se já é conturbado para pessoas que têm acesso e já são do meio artístico, imagine para o pessoal que mora em um território com histórico muito complicado de acesso à arte”, analisa João que, nesse ano, prestará o vestibular para Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Plateia lotada acompanha apresentação artística dos estudantes

Plateia lotada acompanha apresentação artística dos estudantes

“Nossa cidade precisa de mais demonstração da arte. Temos um teatro, temos apresentações bacanas, temos cursos em arte, mas isso não é tão valorizado”, constata Emilly, que hoje integra, junto com João, a Companhia Pangará.

Outro fator de resistência apontado é a aceitação da família em cursarem cursos técnicos voltados para arte. “O curso técnico em arte não é o que as famílias sonharam para esses jovens. Elas sonham com um curso em informática e tecnologia, acreditando que, com isso, eles terão emprego, o que é uma ilusão também, comenta Juliana.

O “Circoletivo” está em pleno funcionamento, com apenas uma mudança: como o Marista passou a oferecer também um curso de artes cênicas e, com isso, ampliou-se a programação (com artes visuais, dança, teatro, performance etc.), os educandos decidiram trocar o nome por outro que expressasse melhor seus anseios. “É no mesmo lugar, com os mesmos artistas e esperamos que nunca termine”, conta João.

“Veja o exemplo do Marista. No começo, era uma instituição para alunos em situação de risco. Os pais não tinham com quem deixar os filhos e, graças à arte, muitos jovens que estariam hoje nas ruas são artistas. Alguns estão na Escola de Circo do Rio de Janeiro! Vê como a arte influencia nossas vidas?”, afirma com entusiasmo Emilly.

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Redação: Rôney Rodrigues
Edição: Juliana Gonçalves
Imagens: Divulgação

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