Criativos da Escola | Estudantes promovem valorização de profissionais negros na Bahia
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Estudantes promovem valorização de profissionais negros na Bahia

Temas

  • cidadania e direitos humanos
  • relações étnico-raciais
três adolescentes, duas meninas e um menino, posam de máscara.

Rio do Antônio - BA

Ano de Inscrição: 2020

status Premiado

ODS

16/07/2021 - Por Andrea Costa

Alunos de Rio do Antônio (BA) ampliam discussões sobre o racismo e o mercado de trabalho por meio das redes sociais.

No ano de 2020, a morte do homem afro-americano George Floyd, nos Estados Unidos, desencadeou uma sequência de protestos que denunciavam não só a violência policial, mas o preconceito e a discriminação racial. Com o slogan “Vidas negras importam”, as manifestações se popularizaram e ampliaram o debate sobre o racismo estrutural e institucional enraizado em sociedades com histórico escravocrata.

Aqui no Brasil não é diferente. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2021, é possível observar uma das expressões desse racismo estrutural: apesar de serem a maioria da população (54%), os negros representam 72,9% dos desempregados do país. 

Com o desejo de entender os impactos do racismo no mercado de trabalho, estudantes do Colégio Estadual do Rio do Antônio, em Rio do Antônio (BA), criaram o projeto Chama Preta, um dos premiados na sexta edição do Desafio Criativos da Escola. A iniciativa se propõe a pautar o tema na comunidade e desenvolver ações antirracistas e de empoderamento à população negra da região. 

“É um projeto de valorização do trabalho das pessoas negras na minha cidade. Não apenas de valorização, mas sim de ampliar a voz do negro e mostrar nossos feitos à comunidade”, explica Aaron Rodrigues, de 16 anos.

Desenho feito a mão com lápis de cor representando um homem com vários tons de pele negra e escrito Chama Preta

Logo do Projeto Chama Preta

Ao planejar seu futuro profissional, Aaron se deparou com uma problemática muito presente na cidade, mas que era pouco discutida: a desvalorização e o desprestígio dos trabalhos executados por pessoas negras. “Eu tinha muito medo de entrar em determinado ramo no mercado de trabalho e não ser bem sucedido por conta de preconceitos que a sociedade vem enraizando cada vez mais”, ele explica.

Vozes que Apetrecem

Depois de compartilhar seus receios com as amigas, eles formaram um grupo com a proposta de construir redes de diálogos e pautar o preconceito racial na região. Assim surgiu o Vozes que Apetrecem, série de lives no Instagram do projeto, como um espaço online para trocar ideias com todos aqueles que querem conhecer mais sobre perspectivas antirracistas. “O termo ‘apretecer’ foi sugerido pelos alunos como neologismo para referirem-se a algo que informa, enriquece e une”, explica a professora orientadora do projeto Maiara Almeida. E complementa: “[essa expressão] encaixou-se perfeitamente à proposta e muito condiz sobre esse levante de desassociar o preto à negatividade”. 

Por meio de conversas com familiares e vizinhos, respeitando o isolamento social imposto pela pandemia, além dos encontros online, os estudantes construíram e aplicaram um questionário. Com perguntas descontraídas, o grupo buscou perceber quais eram os discursos dominantes sobre o trabalho de pessoas negras na cidade. Depois de muita leitura e diálogo, o grupo confirmou o que já identificavam em seu cotidiano: a expressão do racismo de diferentes formas, mesmo que sutilmente, no mundo do trabalho e também nas relações pessoais.

“O que me chamou mais atenção [nas entrevistas] foi ver o quanto as pessoas ficam marcadas de alguma forma com o preconceito racial que sofreram na infância ou na adolescência”, relata a jovem integrante do grupo, Nara Emanuelle de Souza, de 17 anos. “Dava pra ver quanto isso mexia com elas ainda, na autoestima, na autoconfiança e na segurança”, descreve a aluna.

Oficinas Mãos Negras

A alta interação no Instagram motivou os estudantes a “acender a Chama Preta” no coração da comunidade e enfatizar a importância de se construir empatia em relação às diferenças. Assim, segundo eles, decidiram colocar as mãos na massa e desenvolver ações que vão além das redes sociais.

A equipe planeja, então, a criação de uma oficina permanente na escola após o retorno seguro com relação à pandemia do coronavírus. Segundo eles, a atividade, intitulada Mãos Negras, deverá enaltecer e mostrar para a sociedade o valor do trabalho feito pela população negra. Para isso, os jovens já convidaram profissionais locais, negros e negras, para ministrarem minicursos de artesanato, aulas de redação, costura, culinária, música, entre outras atividades gratuitas e acessíveis para toda a população. “O Chama Preta tem como produto final a ‘Mãos Negras’ (…) para mostrar para a sociedade que cor de pele não define capacidade nem caráter”, defende Aaron.

A oficina também dará espaço para os estudantes debaterem e refletirem sobre os impactos do racismo no cotidiano. O que, para a educadora Maiara, se estabelece como um ato de resistência: “acredito que os alunos avistaram a importância de não se calarem ou se acostumarem frente a situações racistas que se perpetuam e que muitas vezes são vistas como algo ‘aceitável’”.

A luta também é online

Enquanto não podem promover os encontros presenciais, o grupo está cada vez mais engajado nas redes sociais, gerando debates sobre o combate ao racismo e também indicando trabalhos de profissionais e artistas negras e negros. 

 

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A comunicação online, segundo eles, foi essencial para manter a chama acesa mesmo com todas as dificuldades impostas pela pandemia. “Só de ver o projeto ter chegado tão longe apenas com as atividades online já realizou nossas expectativas”, conta Aaron. 

Para a educadora Maiara, a continuidade da ação dos jovens evidencia a importância das ações cotidianas no combate ao racismo: “o inconformismo dos alunos, com toda certeza, nos faz acreditar que, apesar de não encontrarmos soluções definitivas, com voz e com vontade podemos minimizar e dissolver essas duras correntes que ainda nos aprisionam”.

Redação: Andréa Xavier
Edição: Gabriel Salgado

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