Dançando na periferia

Dançando na periferia

Na periferia da zona oeste carioca e munidos apenas de corpos e sensibilidade, estudantes transformam a comunidade onde vivem – e também suas próprias vidas.

Fiação resolvida. Bocais instalados. Lâmpadas novas. Apertaram o interruptor: faça-se a luz! Agora os educandos e educadores do projeto Revolução Urbana de Arte (RUA) contavam com iluminação apropriada no recém-ocupado espaço do Centro Social Urbano (CSU) da comunidade de Santa Margarida, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), equipamento público há anos abandonado.

É um espaço amplo que poderia abrigar atividades de danças urbanas do coletivo que, até então, era sediado em uma garagem que ficara pequena com o aumento do número de interessados. Decidiram dar uma destinação melhor para o CSU da comunidade, há anos sem manutenção ou reforma, do que deixá-lo em escombros. Mas, no dia seguinte, veio a surpresa:

professor_dando_aula_para_dezenas_de_jovens_sentados_em_frente_a_ele“Não havia mais nenhuma lâmpada. Tinha dado um trabalhão conseguir comprar todas elas e foram roubadas! Espaço sempre foi uma grande dificuldade para a gente”, relembra o aluno do 3º ano do Ensino Médio, Pedro Henrique de Castro, integrante do projeto e, hoje, professor de dança do RUA. “Resgatamos pessoas da comunidade que não estariam fazendo nada e ocupamos seu tempo com mais cultura e ação social que é uma ferramenta muito boa para a transformação. [Com a participação no projeto] eu aprendi a me comportar, a respeitar as pessoas, a lidar com as coisas que vêm ao meu encontro, a cuidar do que recebo. Vou levar essa aprendizagem por toda a minha vida”, garante ele.

Maria Julia de Andrade, estudante do 1º ano do Ensino Médio, está há dois anos no projeto e já ministra workshops de vogue (estilo de dança difundido pela comunidade LGBTQI) e é jurada em competições. Ela afirma que o “RUA é uma família”. “Qualquer problema que a gente tem, mesmo pessoal, a gente leva para lá e transforma em dança”, conta ela. E complementa: “na dança também mostramos questões sociais. Não é só uma coreografia, isso é o que mais impacta quando olhamos o projeto: fortalecemos a zona oeste”.

 

Cultura na zona oeste
Mas o grupo não esmoreceu com as dificuldades iniciais. Afinal, tentar combater a exclusão social por meio da arte e cultura, principalmente por meio da dança – um dos objetos centrais do coletivo RUA, que conta, atualmente, com cerca de 70 integrantes – merece esforços. O coletivo foi criado em dezembro de 2013 pelo educador Douglas Barros, também conhecido como DG, e está há cinco anos realizando atividades culturais na periferia do Rio de Janeiro (como festivais, workshops e apresentações). Hoje, conta com alguns eixos para ministrar suas aulas: o RUA Start (para iniciantes), o RUA Project (para quem já experiência), o RUA Streaming (para integrantes já em nível avançado e que desenvolvem suas próprias coreografias) e o RUA Family (para os pais que levam seus filhos nas aulas).

O RUA Family, contam, surgiu de uma constatação peculiar: os integrantes do coletivo repararam que muitos pais –jovem_executando_coreografia_de_dança_no_palco “na verdade, mães”, destaca DG – levavam seus filhos e filhas para as aulas. Decidiram realizar uma atividade que ocupasse o tempo dessas mães que esperavam por sua “prole”. “Muitas mães tinham uma história de ausência do papel masculino na família, sobrecarregadas com a criação das crianças, baixa autoestima e dificuldades com sobrepeso”, avalia o educador DG. A partir dessa experiência, os familiares dos educandos passaram a ser parceiros mais ativos do projeto, dando sugestões e auxiliando em diversas atividades.

O sistema de aulas do coletivo se baseia nos integrantes mais experientes, por meio do Treino Monitorado (TM), compartilhando técnicas, teoria e vivências com os novos integrantes. DG conta, orgulhoso, que quatro ex-alunos estão cursando a graduação em dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – instituição que reconhece o RUA como polo de estágio para seus discentes -, que três companhias de dança se originaram a partir das aulas do coletivo e que, atualmente, estão expandindo a área de atuação, desenvolvendo outros projetos de arte urbana, como fotografia e vídeo.

 

Dançando na garagem
DG – idealizador do coletivo RUA – narra como tudo começou: integrava uma companhia de dança profissional, o “Jovens da Periferia”, como professor, bailarino e intérprete, atuando em comunidades da zona oeste do município como Batan, Macaé, Padre Miguel, Bangu e Realengo. Percebeu que inúmeros jovens de sua comunidade tinham interesse em participar de atividades de dança: “eu até levava alguns de carro, com a permissão dos pais”. Porém a companhia na qual trabalhava ficava muito distante desses jovens, o que fez com que juntasse essa galera na garagem de sua casa. “Nosso bairro tem um histórico de violência e a proposta era pela arte, tendo a dança como uma ferramenta, modificar, de algum modo, a realidade”, explica ele.

“Realizamos eventos, workshops e muitas outras atividades com a comunidade. Nos apresentamos nos colégios da região. Tudo que fazemos é o mais aberto possível. Não é uma escola de dança, coisa que soa inacessível. É um coletivo que preza pela cultura da zona oeste”, destaca Maria Júlia.

cinco_jovens_se_abraçando_em_conjunto“Vemos, também, o entorno da comunidade sendo modificado. Alunas e alunos que estudam em escolas da região e que integram o coletivo levam essa mensagem para outros jovens. O RUA gera muitos multiplicadores”, ressalta DG.
O educador cita uma ação do coletivo que marcou a comunidade: a campanha de arrecadação de verbas e doações (chamada “Se essa rua fosse minha”) para transformar uma das salas do CSU, que estava em escombros, em um teatro comunitário. Porém, lembra que ainda contam com problemas relacionados ao espaço: uma das salas, devido à falta de algumas telhas, alaga em dias de chuva e algumas das portas do Centro são vandalizadas. “A questão é resistir, mas não só: resistir e educar. Acreditar que quem está lá fora tem muitas dificuldades. Conversamos e decidimos tentar, o máximo possível, levar para as pessoas a importância da atividade, o que gerou uma comoção do bairro com o espaço”, analisa ele.

 

Dança: o corpo que fala
Dançar na periferia não é fácil. Quem “ousa” se aventurar por essa expressão artística pode enfrentar dura resistência da família. “Minha mãe me apoia, mas é uma dificuldade que percebi em diversos companheiros e companheiras. A família acha que é só um hobby ou coisa de vagabundo. Não veem [a dança] como uma possibilidade profissional”, conta Maria Júlia. (Veja no fim desta matéria vídeo do grupo RUA).

“Havia um preconceito. Imagina, chegar para a minha mãe e falar: ‘estou fazendo dança’. Para mim, gerou muitos problemas”, confidencia Pedro, que também trabalha como monitor de dança em uma escola pública. “Eu conheci a dança através da escola. Pensei: assim como outros foram um canal em minha vida para que a dança entrasse, eu poderia ser também um canal para outras pessoas. Isso, mesmo com todas as dificuldades, mudou minha vida e eu posso mudar outras também”, complementa ele.

DG avalia que muitos dos problemas que alunas e alunos enfrentam têm semelhanças. “São conflitos familiares, em especial com o pai; baixa autoestima; traumas na infância; abusos sexuais. Levamos isso para os palcos, principalmente no espetáculo “Umanamente”, que contou com laboratórios baseados em técnicas de improviso, transformando traumas em expressão artística. Eles não precisam falar, mas pensar por meio de suas coreografias”, relata ele.

Segundo Pedro, participar desse espetáculo – de certa forma terapêutico – foi muito importante para que ele escolhesse sua área de trabalho: a dança. “[O espetáculo] retrata nossas histórias, nossas dificuldades, abriu portas para eu que possa fazer o que quero”, afiança o jovem.
“A dança faz parte de mim. É como eu me expresso: dançando. O RUA foi o ponto de partida para eu evoluir, pesquisar sobre minha área, me aprofundar e me exercitar. Abri a cabeça”, comenta Maria Júlia, quando perguntada sobre o significado da dança em sua vida.
“Essa experiência é única”, conclui Pedro.

 

Você conhece um projeto protagonizado por crianças e jovens que está transformando a escola e a comunidade?

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Redação: Rôney Rodrigues
Edição: Gabriel Salgado
Imagens: Divulgação

27 Comentários
  1. O R.U.A é uma grande família, todos somos unidos, um por todos e todos por um ❤️❤️

  2. A União Faz a força… E neste quesito somos invencíveis!
    R.U.A. um modo de viver!

  3. Cheguei a pouco tempo e é incrível a união e a energia dessa galera em meia tantas dificuldade e necessidades❤

  4. RUA é como uma segunda família, você se sente acolhido de verdade, muito orgulho de poder fazer parte ❤

  5. A melhor segunda família que se pode ter❤❤

  6. Meus parabéns. É lindo ver o quanto a arte é maravilhosa. Deus nos concedeu a arte como benefício!
    Vejo o quanto o R.U.A é bom para nossa comunidade. Parabéns, DJ e aos demais!❤

  7. Que orgulho do grupo na qual eu faço parte! Gratidão a Deus por tudo! O RUA É MINHA FAMÍLIA! ❤

  8. R espeito
    U nião
    A mor

    Gratidão total por poder compartilhar, em algumas palavras, sobre minha vivência dentro do projeto e por fazer parte dessa família.❤

    #MãeToNaGlobo #Ops #CriativosDaEscola #RUA #fam

  9. É muito lindo ver como o projeto está sendo reconhecido dessa forma! Realmente não se trata de um simples grupo, mais sim de uma família que acolhe todos!

  10. Tem pouco tempo que eu entrei nessa família maravilhosa, mas eu já conhecia o projeto a tempos, eu admiro muito tudo o que acontece no R.U.A., ele acolhe a gente de um jeito sensacional, sou apaixonada <3

  11. Faço parte do grupo a pouco tempo mas me acolheram tão bem q eu realmente posso dizer q esse é minha 2° família

  12. Nessa sociedade tão DESPROVIDA de CULTURA, esse grupo REVOLUCIONÁRIO permite que tenhamos acesso a ARTE da DANÇA. Muito mais que um grupo, uma FAMÍLIA acolhedora! Fico imaginando o que séria dos integrantes desse MOVIMENTO, se não o tivessem conhecido, seriam destinos tão diferentes… A união dessas pessoas é maior que qualquer obstáculo que possa estar presente em seus caminhos!

    RESPEITO.
    UNIÃO.
    AMOR.

    UMA RUA QUE SOBE, UMA RUA QUE DESCE, UMA RUA QUE NOS UNE! 👆👇✌ ksksksks

  13. É A Melhor Família Que ❤

  14. Não é só um simples projeto abrangente, na verdade, é perceptível que todos ali fazem parte de uma linda família ❤ tenho muito orgulho de dizer que sou muito fã!

  15. É uma honra poder fazer parte de um projeto tão incrível. Nos inspira todos os dias a avançarmos! 💕

  16. Lindo Projeto ❤️
    Gratidão.

    • Agradecemos pela leitura. Veja outras histórias como essa em nosso site!
      Abraços!

  17. Não parem não !

  18. Sabe aquele abraço, aquele mesmo, então esse é o RUA! Onde você chega e é feliz, um espaço no qual você não quer sair. Você sai da sua casa e vai pra outra onde se encontra pessoas ótimas onde te apoia em tudo.

    • Que lindo, Daniel! Ficamos muito felizes em saber o que o RUA significa a vocês.
      Parabéns!
      Abraços!

  19. Orgulho de fazer parte desse projeto maravilhoso, uma família ♥️

  20. Tenho a total convicção de que se não fosse pelo RUA, muitos jovens e crianças estariam ocupando suas mentes nas ruas com coisas inadequadas. É sempre uma honra participar desse Coletivo, que no começo eu levava como refúgio, agora levo como família. Amo demais!
    OHANA!♥
    #GDRUA #ZO #UMRUAQUESOBEUMARUAQUEDESCEUMARUAQUENOSUNE

    • Que bacana, Hugo, saber de tudo que o RUA representa a você. Parabéns pelo projeto, é muito bonito.
      Abraços!

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