As mães também podem

As mães também podem

Projeto promove encontros presenciais e dinâmicas virtuais para compartilhar experiências e criar grupo de apoio entre mães jovens no Rio de Janeiro (RJ).

A gravidez na adolescência é uma realidade global, com índices acima da média no Brasil. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 68,4 casos a cada 1.000 nascimentos se dão na faixa dos 15 a 19 anos no país – a média mundial é de 46/1.000.

Além de evidenciar lacunas numa política de Estado transversal que envolva educação sexual, saúde e segurança pública, essa realidade ainda traz consigo um quadro de vulnerabilidade psicológica para as jovens mães – adolescentes ou não –, que precisam lidar com o preconceito da sociedade, inclusive de pessoas outrora próximas.

A estudante universitária Bárbara dos Santos, de 22 anos, descobriu que estava grávida no quarto período da faculdade, aos 20 anos. Diferentemente de muitas meninas, ela contou com apoio do pai do pequeno Cauã, da família e dos amigos. Entretanto, a gestação foi um período conturbado, quando, por exemplo, ela não teve o contrato de estágio renovado em um escritório de advocacia. Além de observar que outras mulheres também perdiam o emprego nesse período, Bárbara se incomodava com situações ainda mais duras, como a de mães que são escorraçadas de suas casas, abandonadas pelas famílias e amigos, e a clássica figura paterna ausente.

Grupo posa para foto após encontro de projeto Causa Mãe

Grupo posa para foto após encontro de projeto Causa Mãe.

Problemas assim eram visíveis diariamente na região da Grande Pavuna, na zona norte do Rio de Janeiro, onde Bárbara se uniu a Luciano Bello (23), Sheyza Teixeira (18), Vitória Oliveira (20) e Vinicius da Costa (20) para criar o projeto Causa Mãe, uma rede de apoio para o compartilhamento de experiências, habilidades e impressões sobre a maternidade na juventude.

“O projeto nasceu a partir do Festival Todo Jovem é Rio, da Semana Jovem Faz para Jovem, quando fomos estimulados a pensar a educação, a segurança e o gênero mulher de várias formas. Assim, cada pessoa foi convidada a montar um projeto e os mais próximos foram conectados. O meu era bem próximo ao da Vitória, que também tinha uma vivência semelhante pela história de sua mãe, que a teve na adolescência”, conta Bárbara.

O objetivo era reunir dois grupos femininos com perfis complementares: mulheres que tiveram suporte para tocar suas vidas normalmente durante a gravidez e aquelas que não tiveram, tendo eventualmente sido obrigadas a deixar a escola e anulado qualquer perspectiva profissional e sonhos.

A ação, ocorrida no segundo semestre de 2018, foi promovida pela Agência de Redes para Juventude, que realizou essa e outras intervenções sociais com tutoria, formação e mobilização em bairros periféricos e favelas da capital fluminense. “Um dos nossos princípios é pedir que os jovens reproduzam suas ações não como alunos, mas como protagonistas, com práticas participativas e colaborativas. Que sejam criadores e realizadores em suas metodologias”, explica Veruska Delfino, coordenadora da ONG.

 

Solidariedade feminina

Jovens criam espaço para crianças durante atividades do projeto

Jovens criam espaço para crianças durante atividades do projeto.

A potência da solidariedade coletiva feminina (ainda que alguns homens tenham se agregado ao processo) resultou em três encontros presenciais – dois na casa de Bárbara e um na Arena Carioca Jovelina Pérola Negra, na Pavuna –, que reuniu mais de 50 mães.

Durante os debates, o grupo Causa Mãe ainda ofereceu um espaço de recreação com monitores para as crianças se divertirem enquanto as matriarcas eram provocadas pelos temas que os jovens traziam ao debate, após minuciosa curadoria sobre ser mãe na juventude. Entre eles, estrutura familiar, passado, dia a dia, sociedade, mundo do trabalho, educação, etc.

Bárbara considerou o comparecimento exitoso e também o maior desafio do Causa Mãe, por se tratar de “um público muito improvável”. “O dia a dia com uma criança é muito inesperado, com tarefas que às vezes desestimulam uma mãe a sair de casa. Muitas ficaram bem interessadas no projeto, mas no dia do encontro relatavam dificuldades para se deslocar”, diz.

Todas as mães foram convidadas a ir aos encontros com o transporte público pago pelo grupo. Uma das datas, porém, choveu muito, quase inviabilizando a realização. A saída foi mobilizar as interessadas mais próximas a fazerem o traslado com carros particulares de aplicativos, quando o valor era cabível no orçamento disponibilizado pela ONG.

 

Do trabalho coletivo às redes sociais

Para Sheyza Teixeira, trabalhar em equipe com pessoas que praticamente não se conheciam também foi uma experiência pessoal redentora. “Eu sempre tive dificuldade para atuar em grupo, porque anseio por liderar. Mas dessa vez isso não aconteceu. Quando eu tinha que tomar a frente de alguma decisão, eu fazia e os meus colegas me respeitavam. E o oposto também ocorria. Foi uma experiência muito agregadora”, conta a jovem, que foi responsável pela gestão das finanças do Causa Mãe.

Como resultado produzido na comunidade, o coletivo criou grupos nas redes sociais WhatsApp e Facebook, que acabaram forjando dinâmicas próprias entre as participantes. Ainda mais importante foi um esquema solidário de rodízio voluntário para as crianças permanecerem nas casas das mulheres com maior estabilidade enquanto suas mães estão retomando os estudos.

Os participantes do coletivo Causa Mãe acreditam que podem melhorar a gestão do tempo e, se dispuserem de mais recursos financeiros, aprimorar o acolhimento nos próximos encontros presenciais. Esse é um dos objetivos para 2019, que também devem contar com o suporte de profissionais convidados, como psicólogos. Em suma: é uma rede viva que segue tecendo sororidade.

 

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Redação: Ênio Lourenço
Edição: Juliana Gonçalves
Imagens: Divulgação

1 Comentário
  1. Bela matéria e achei a iniciativa do projeto, fantástica. Parabéns aos idealizadores.

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