Adolescer: a arte como caminho para a empatia

Adolescer: a arte como caminho para a empatia

Para falar com jovens sobre temas como suicídio, homofobia e relacionamento abusivo, estudantes do município Paulista (PE) utilizam as artes como ferramenta de diálogo

Como lidar com temas sensíveis aos adolescentes, como suicídio, racismo, machismo ou homofobia? Incomodados com diferentes manifestações de ódio nas redes sociais contra pessoas da comunidade escolar, meninas e meninos da Escola Estadual José Alencar Gomes da Silva, localizada no município pernambucano de Paulista, decidiram utilizar a arte como ferramenta para combater a prática conhecida como cyberbullyng. O projeto foi um dos finalistas do Desafios Criativos da Escola 2018.

 

Fique de olho: as inscrições para o Desafio Criativos da Escola 2019 já estão abertas

 

Sensibilizados e buscando evitar os danos psicológicos causados pelas ofensas veiculadas na internet, três estudantes decidiram problematizar essas questões durante as reuniões do Grupo de Teatro e Dança Ariano, que ocorrem como uma atividade extracurricular da escola e desenvolvem a produção autoral por meio do teatro e da dança.

Estudantes durante apresentação de espetáculo de temas sensíveis

Estudantes durante apresentação de espetáculo de temas sensíveis

“Foi um desafio tratar dessa dor por meio da arte. Nós tivemos a ideia de utilizar o teatro e a dança para abordar os assuntos que envolviam as ofensas veiculadas contra diversos alunos. O conceito original era tratar do cyberbullying, mas depois nós fomos incorporando outras questões da adolescência, como depressão, suicídio e a descoberta da sexualidade”, conta Robert Lopes de Melo, estudante do 3º ano do Ensino Médio.

 

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O projeto dos adolescentes busca combater um problema que acontece não só no Brasil, mas em todo o mundo. Estimativa da Organização Mundial de Saúde aponta que 800 mil pessoas se suicidaram em 2016, sendo que 78% dos casos aconteceram em países de renda baixa e média. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, foram registradas 11.433 mortes por suicídio em 2016, o que equivale a 31 casos por dia. Esta é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

 

A história de Ian

A partir do esforço de Robert e outros dois colegas na pesquisa e montagem do roteiro, surgiu a peça “Adolescer: uma homenagem a tudo o que está nas entrelinhas”, que conta a história de Ian, um jovem que está prestes a cometer suicídio e começa a revisitar todas as suas relações e as necessidades das pessoas que o cercavam.

Robert, roteirista que também atuou no papel do personagem principal, aponta que, além dos diversos problemas que envolvem a adolescência, o espetáculo buscou também incorporar as dimensões positivas dessa faixa etária, como a descoberta do amor e da empatia.

“Foi bastante interessante [tratar sobre a empatia] porque eu consegui enxergar mais as pessoas que estavam ao meu redor e aprender a lidar melhor com algumas situações”, explica Robert.

Mas para a concretização da peça teatral foi necessário muito trabalho dos cerca de 100 estudantes envolvidos, que se dividiram nas equipes de roteiro, elenco, iluminação e sonoplastia.

 

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Anne Alice Santos de Freitas, também estudante do 3º ano do Ensino Médio, participou do elenco do espetáculo no papel de irmã de Ian, uma jovem vítima de um relacionamento abusivo. “Tem meninas na escola que mantinham relacionamentos, mas nem sabiam que eram abusivos, porque nunca haviam tido contato com essa discussão. Tem muitos meninos que se identificaram bastante também com a parte da homofobia e resolveram se assumir”, relata .

Adolescentes criaram peça para estreitar o diálogo na comunidade esco

Adolescentes criaram peça para estreitar o diálogo na comunidade escolar

De acordo com a estudante, o resultado para os participantes da peça e para os espectadores foi transformador: “eu acho que foi um grande aprendizado individual, não só pra mim como para todos. Os próprios alunos diziam que era uma das peças mais incríveis que eles já tinham visto, e justamente porque retratava a realidade”.

Semente contínua

O espetáculo foi apresentado no final de setembro de 2018, mês de mobilização mundial contra o suicídio, no auditório da escola. Segundo a professora de Língua Portuguesa e orientadora da Oficina Ariano, Mônica da Veiga Pessoa Dias Teles, o impacto na comunidade escolar foi muito positivo.

“As pessoas trouxeram muitos questionamentos a partir da peça sobre como poderiam ajudar os filhos nos problemas apresentados”, exemplifica a professora. E recorda: “muitos alunos não se colocaram apenas como espectadores, mas enxergaram a própria vida e perceberam que precisavam de mudanças”.

 

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O sucesso da ação  foi tão grande que o projeto Adolescer entrou para o calendário da escola  e passou a ser uma atividade anual. Neste ano, com a entrada de novos participantes, o grupo vai desenvolver novos textos relacionados à temática da adolescência para serem apresentados em forma de peça teatral no final do ano.

 

Redação: Guilherme Weimann

Edição: Jéssica Moreira

Imagens: Divulgação

4 Comentários
  1. É um orgulho imenso participar desse trabalho, são meninos altamente criativos e que além de entenderem a mensagem do espetáculo a propagaram na vida de quem estava ao seu redor. Orgulho e gratidão!!! #RumoAoAdoleSer2019

  2. É de extrema importância projetos como esse nas escolas, principalmente na conjuntura em que vivemos. A escola ETE José de Alencar, vem desenvolvendo projetos que envolva a interação dos jovens, o que faz com que eles conscientizem-se e ocupem tanto a mente que nem terão tempo para pensar em coisas que os levem a perdição. A escola junto aos alunos estão de parabéns eficaz aí a dica para outras escolas se envolverem em projetos, mesmo sem estrutura o suficiente, mas dá para desenvolver. O que não dá é ficar de braços cruzados e ver a juventude ociosa, se acabando com suas ansiedades e anseios. Deus vos abençoe…

  3. Projeto incrível, tanto por abordar temas tão sérios e necessários quanto pela forma escolhida. A arte sempre fará diferença na vida de quem produz e de quem consome. Acredito que esse trabalho é imensamente corajoso, ao mesmo tempo que toca em muitas feridas, ele representa uma luta ao que possa ferir. Parabéns!!!

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