Protagonismo e inclusão

Protagonismo e inclusão

Estudantes com deficiência mostram importância do protagonismo na educação inclusiva a partir de ações criativas

Os alunos podem e devem ser agentes de transformação e incentivarem a reflexão sobre o espaço escolar, tenham eles deficiência ou não. Este é um dos primeiros passos para tornar um ambiente realmente inclusivo. A partir desta provocação, a coordenadora do projeto Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, Aline Santos, destaca que, para iniciar uma prática inclusiva com o protagonismo dos estudantes, “a gestão escolar não precisa ter todas as respostas, nem esperar pela opinião de especialistas”. O caminho pode ser construído a partir do que os próprios alunos levantarem como possibilidades: “não é preciso coisas mirabolantes, mas sim que os estudantes sejam os protagonistas desse desenvolvimento e o professor possa atuar como o mediador das ações e do conhecimento a ser construído”. a7b66a6f-4c28-456e-aa8a-b70db2b1fdbe

Um exemplo de criatividade e autonomia é o caso de Fernando de Melo. Com 17 anos, o aluno do 6º ano do ensino fundamental desconstruiu as expectativas e os preconceitos com relação a sua deficiência física e intelectual ao contribuir para a inovação na prática da educação física no contraturno da Escola Municipal Antônio Heráclito do Rêgo, em Recife (PE).

“O Fernando era uma aluno esquecido e desvalorizado pelos seus colegas e acabava sempre de fora das atividades”, relata a educadora Elisangela Santana, que realiza o Atendimento Educacional Especializado (AEE) no colégio. Ao contar para os outros alunos e professores que jogava capoeira, Fernando surpreendeu a todos e chamou a atenção da gestão, que decidiu abrir as portas da escola para o grupo em que o estudante participa. “Eu fui chamado para o grupo de capoeira e gostei. Estou até hoje e é bom para meu corpo”, conta Fernando.  2016_IRM_PAI_REC_VE_PatAlbuquerque_8

A partir de uma roda e de uma palestra sobre a história do esporte para mais de 100 estudantes da escola, a iniciativa também colaborou para quebra de preconceitos sobre a cultura africana e afrobrasileira. “Eu me emocionei muito porque vi uma barreira sendo quebrada pelo Fernando. Os colegas ficaram interessados pelas habilidades dele e hoje todos o valorizam”, descreve Elisângela. Alguns dos alunos que participaram do evento gostaram tanto da iniciativa que, atualmente, praticam capoeira mesmo fora da escola.

Confira mais detalhes sobre a iniciativa do estudante Fernando:

 

A diferença é um problema?
Umas das dúvidas mais recorrentes no que se refere à educação inclusiva é sobre como lidar com as diferenças entre os estudantes. Para a coordenadora do Instituto Rodrigo Mendes, no entanto, o grande problema não são as características específicas das pessoas – sejam elas pessoas com deficiência ou não – mas o cenário de desigualdade que pode ser causado a partir desta diversidade. Uma das alternativas, para Aline, é incentivar a empatia e a abertura de mais espaços de diálogo entre todos os estudantes sobre as situações vividas. “A gente tem que parar de procurar e de pensar em atividades separadas para os estudantes com deficiência. As respostas para um melhor desenvolvimento podem vir deles mesmos”, defende Aline.

Os desafios não estão somente atrelados aos estudantes já que, segundo a especialista, a insegurança dos educadores no ensino para alunos com deficiência também é uma barreira a ser quebrada. “Uma característica não define a pessoa integralmente. A deficiência é um detalhe entre tantos outros, já que todas as pessoas, com deficiência ou não, têm seus dilemas, suas questões”, reforça.

O caso do estudante surdo Rafael Pereira, por exemplo, do 7º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Dom Silvio Maria Dário, de Itapeva (SP), mostra como conseguiu lidar com as adversidades do ambiente escolar com a ajuda de seus colegas. O aluno passava a maior parte do tempo acompanhado pela educadora e intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), Juliana de Mattos. No entanto, a interação com os demais jovens era limitada e trouxe uma inquietação generalizada em toda a turma.  estudantes andam na rua em passeata de conscientização com cartazes sobre "setembro azul"

Incomodados, os colegas de Rafael reivindicaram aulas de Libras para toda a sala e o plano deu certo: hoje ele tem diversos amigos e participa ativamente de inúmeras atividades. “Conforme ele foi participando, ficou cada vez mais motivado a realizar outras atividades. Ele foi estimulado porque fazia parte do contexto”, relata sua professora de língua portuguesa, Luciana Fascetti.

A mobilização promovida pelos estudantes se espalhou para toda a escola que, desde então, realiza eventos utilizando a linguagem de sinais. A partir do projeto, o grupo foi um dos premiados no Desafio Criativos da Escola 2016. “O melhor momento durante do projeto foi ter a possibilidade de ter viajado, conhecido a praia e estar em contato com outras pessoas”. revela Rafael, sobre a premiação.

Nada sobre nós sem nós. A partir do lema levantado por movimentos de pessoas com deficiência, a coordenadora Aline destaca a importância da construção conjunta para que qualquer aluno, independente de sua condição, possa superar suas dificuldades de aprendizado: “nem toda pessoa surda usa libras e nem toda pessoa cega vai preferir utilizar braile, por exemplo. A escola pode ajudar esse indivíduo a encontrar qual seria a melhor estratégia para seu aprendizado”.

Assista ao vídeo sobre o projeto Libras: a voz do silêncio:

 

As potencialidades do protagonismo
Tanto a comunidade escolar, quanto a família tem papéis fundamentais no incentivo à autonomia dos alunos com deficiência. Além disso, para Aline, “o protagonismo se revela quando a pessoa com deficiência pode falar e incidir sobre as situações que ela vive”. É necessário, neste sentido, proporcionar espaços para que esse desenvolvimento aconteça: “é recorrente que o estudante com deficiência não tenha tido a oportunidade de se colocar. Então é importante ajudá-lo a encontrar esse caminho para ele perceber que pode fazer as coisas sozinho, que tem direitos e que tem um mundo todo que ele pode explorar para ser o que quiser”. Rafael e sua amiga ensina Libras para colegas

Neste sentido, a coordenadora do projeto Diversa aponta que um dos maiores desafios da educação inclusiva e da educação formal é reconhecer a cultura do aluno, seus limites, potencialidades e dar condições mínimas para que possa ter um desenvolvimento pleno. “As pessoas estão habituadas a falar por elas ao invés de ouvi-las. Se a pessoa com deficiência quiser participar ou não, a escolha é dela, mas essa autonomia deve ser garantida”, complementa Aline, defendendo que investir no potencial e nas particularidades dos alunos com deficiência também são caminhos fundamentais para incentivar seu protagonismo.

 

Redação: Vanessa Ribeiro
Edição: Gabriel Maia Salgado
Imagens Fernando: Pat Albuquerque
Imagens Rafael: Fernanda Tavares – Criativos da Escola/ Divulgação

 

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